A geração acima dos 50 anos certamente se lembrará desse nome: “Manel Doido”. “Tulista aforçado”, como ele mesmo se definia, natural de Belmonte, na Bahia, Manoel fez parte da paisagem afetiva de uma época em que figuras simples carregavam consigo histórias ricas, presença marcante e uma humanidade rara. Era daquele tipo de personagem que provocava curiosidade, expectativa e ternura. De tempos em tempos, surgia por aqui — sempre conhecido, sempre acolhido, sempre recebido com o cuidado que a comunidade lhe dedicava.
Quem viveu aqueles tempos lembra bem: o café com leite na casa de seu Amirca e dona Maria era quase uma tradição quando Manoel aparecia. Ele recebia atenção, alimentação, roupa limpa e, sobretudo, afeto. Não era apenas um visitante; era parte da rotina, parte da história, parte da memória de muitas famílias.

Para a nova geração, que talvez não tenha tido o privilégio de conhecê-lo, vale dizer: “Manel Doido” era “doido” só no apelido. Tinha um coração equilibrado e uma mente singular, capaz de ler à sua maneira, soletrando letras, formando palavras e construindo diálogos. E sempre havia a sua pergunta clássica, que marcava todos que cruzaram seu caminho:
“Você conhece Canavieiras?”
Era sua senha, seu jeito de puxar conversa, de testar afinidades, de criar laços. Manoel gostava de conversar, tinha memória afiada, lembrava nomes, episódios históricos, fatos políticos — do Brasil, da região e, sobretudo, de Medeiros Neto, cidade pela qual nutria um carinho declarado.
Os mais antigos também guardarão outra lembrança: Ione Bomjardim era quem cortava o cabelo e fazia a barba de “Manel Doido”. Não era apenas um gesto de cuidado estético, mas de respeito e amizade. Quando tocava sua gaita de bolso na calçada de Misael, toda a cidade sabia: “Manel Doido está triste.”
Mas o destino, sempre tão implacável, não poupa sequer os “tulistas aforçados”. Na última segunda-feira, 17 de novembro, “Manoel Doido” nos deixou, vítima de um AVC, aos mais de 80 anos. Partiu de forma silenciosa, mas deixando para trás um eco de histórias e um rastro de saudade.
Por tudo isso, as filhas de Amirca e dona Maria — representadas por Ione Bomjardim — não poderiam deixar de prestar esta última homenagem. Manel Doido esteve presente naquela casa desde os anos 60, atravessando décadas como uma espécie de visitante especial, desses que o tempo molda como figura afetiva e a memória transforma em patrimônio sentimental.
Hoje, lhe rendemos este registro, não apenas como despedida, mas como reconhecimento. Porque personagens como “Manoel Doido” não pertencem apenas às lembranças individuais; pertencem à história de uma cidade.
Descanse em paz, Manoel.
Que sua pergunta ecoe para sempre na memória de quem teve o privilégio de respondê-la: “Você conhece Canavieiras?”
Por: Sessé Guimmas / MDD
Fonte: Medeiros Dia Dia

















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